# vinte e oito
Memórias em postais
Três caixas de postais recolhidos ao longo de muitas vidas.
Postais que chegaram à (s) minha(s) caixa(s) do correio ao longo da minha vida. Postais que foram recolhidos pelo tio Manel, enviados e recebidos por membros da nossa família ao longo de muitas décadas.
Três caixas de vidas para organizar. Para cumprir tarefas necessárias e uma promessa, feita na adolescência. Disse-te que era o melhor presente que alguém me tinha dado, quando me deste aquela caixa. Quando passámos tardes na cozinha, a retirar os selos dos postais com a chaleira da Mimi, para os catalogares na tua espectacular colecção. Disseste-me que escolhesse os postais de que mais gostava. Os das tias, dos primos, de desconhecidos. Sei o quanto esta caixa esteve guardada religiosamente durante décadas. Lembro-me bem da altura em que me deste a caixa.
Setembro de 1991. As lágrimas caíam-me. A morte é sempre insuportável, é certo. Mas esta era a perda da minha vida. E aos 12 anos não se sabe enfrentar o inferno da morte. Disseste que ter saudades era bom, porque quer dizer que há amor. Quiseste dar-me uma alegria e uma motivação extra. E deste.
A caixa já está acompanhada por mais duas. A Mimi sabe disso. A minha querida avó sabe e conta-me as vossas histórias. Continuo a não gostar de ter saudades. Como te disse na altura. Mas também tenho saudades tuas. Muitas. Do nosso tempo e do vosso tempo. Do teu e da Mimi. Porque foste tu o meu avô. O melhor do mundo. E não me lembro se alguma te disse isso.
[este texto foi escrito para um desafio do Escreva. Porque as memórias são para sempre, (re)publico-o neste espaço]
A morte é sempre algo que nos custa a aceitar. Gostei muito deste texto, das palavras escolhidas, de sentimentos que muitas vezes não sabemos como expressar.
Há coisas que ficam sempre por dizer…É inevitável! Acima de tudo, ele, o teu avô, estará sempre num lugar seguro. No teu coração.
1 beijinho
February 22nd, 2007 at 4:37 pm